 porta de acesso e a levou para dentro do
castelo, com o rosto queimado a contrair-se em espasmos e os
olhos alertas, sempre um passo atrás enquanto subiram as
escadas da torre. Levou-a em segurança ao longo de todo o
caminho até o corredor que dava aos seus aposentos.
- Obrigada, senhor - Sansa disse humildemente.
Cão de Caça agarrou-lhe o braço e inclinou-se para a frente.
- As coisas que te disse esta noite - disse, com a voz ainda mais
áspera que de hábito. - Se algum dia contá-las a Joffrey... a
sua irmã, ao seu pai... a algum deles...
- Não conto - sussurrou Sansa. - Prometo.
Não era o suficiente.
- Se algum dia contar a alguém - terminou ele -, eu a mato.

Eddard

- Eu mesmo o velei - disse Sor Barristan Selmy, olhando o
corpo que jazia na parte de trás da carroça. - Ele não tinha
mais ninguém. Falaram-me que talvez uma mãe, no Vale. A
fraca luz da madrugada, o jovem cavaleiro parecia estar
dormindo. Não fora bonito em vida, mas a morte suavizara-
lhe as feições rudemente talhadas, e as irmãs silenciosas o
tinham vestido a sua melhor túnica de veludo, com um
colarinho elevado para cobrir a ruína em que a lança tinha
transformado sua garganta. Eddard Stark olhou seu rosto e
perguntou a si mesmo se teria sido ele o causador da morte do
rapaz. Morto por um vassalo dos Lannister antes que Ned
pudesse falar com ele; seria possível que não passasse de mero
acaso? Supôs que nunca chegaria a saber.
- Hugh foi escudeiro de Jon Arryn durante quatro anos -
prosseguiu Selmy. - O rei o armou cavaleiro antes de partir
para o norte, em memória de Jon. O rapaz desejava aquilo
desesperadamente, mas temo que não estivesse pronto.
Ned dormira mal na noite anterior e sentia um cansaço maior
do que seria de esperar da idade.
- Nenhum de nós jamais está pronto.
- Para ser armado cavaleiro?
- Para a morte - com gentileza, Ned cobriu o rapaz com seu
manto, azul manchado de sangue, debruado por luas
crescentes. Refletiu amargamente que, quando a mãe
perguntasse por que razão o filho estava morto, lhe diriam
que tinha lutado em honra da Mão do Rei, Eddard Stark. -
Isto foi desnecessário. A guerra não devia ser um jogo - Ned
virou-se para a mulher que estava ao lado da carroça, envolta
em cinza, com o rosto escondido, apenas os olhos à mostra. As
irmãs silenciosas preparavam os homens para a sepultura, e
era má sorte olhar a morte no rosto.
- Envie sua armadura para casa, para o Vale. A mãe deve
querê-la.
- Vale uma boa quantia em prata - disse Sor Barristan. - O
rapaz mandou-a forjar especialmente para o torneio. Um
trabalho simples, mas bom. Não sei se acabou de pagar ao
ferreiro.
- Pagou ontem, senhor, e pagou caro - respondeu Ned. E à
irmã silenciosa disse: - Envie a armadura à sua mãe. Tratarei
com esse ferreiro - a mulher fez-lhe uma reverência.
Mais tarde, Sor Barristan acompanhou Ned até o pavilhão do
rei. O acampamento começava a se agitar. Salsichas gordas
chiavam e pingavam sobre fogueiras, temperando o ar com os
odores do alho e da pimenta. Jovens escudeiros caminhavam
apressados por ali, conversando, enquanto seus senhores
acordavam, bocejando e espreguiçando-se, saudando o dia.
Um criado com um ganso debaixo do braço dobrou o joelho
ao vê-los. "Senhores", murmurou, enquanto o ganso grasnava
e lhe bicava os dedos. Os escudos exibidos à porta de todas as
tendas anunciavam seus ocupantes: a águia de prata de
Guardamar, o campo de rouxinóis de Bryce Caron, um cacho
de uvas para os Redwyne, o javali malhado, o touro
vermelho, a árvore flamejante, o carneiro branco, a espiral
tripla, o unicórnio roxo, as donzelas dançantes, a víbora
negra, as torres gêmeas, a coruja chifruda e, por fim, os
brasões de um branco puro da Guarda Real, brilhando como a
madrugada.
- O rei pretende participar hoje do corpo a corpo - disse Sor
Barristan enquanto passavam pelo escudo de Sor Meryn, com
a tinta maculada por um profundo golpe onde a lança de
Loras Tyrell marcara a madeira ao derrubá-lo da sela.
- Sim - disse Ned em tom sombrio. Jory acordara-o na noite
anterior para lhe dar a notícia. Não admirava que tivesse
dormido tão mal.
O olhar de Sor Barristan estava perturbado.
- Diz-se que as belezas da noite esmorecem de madrugada, e
que os filhos do vinho são frequentemente renegados à luz da
manhã.
- É o que dizem - concordou Ned -, mas não de Robert -
outros homens poderiam reconsiderar as palavras ditas em
bravatas ébrias, mas Robert Baratheon as recordaria e,
recordando-as, nunca recuaria.
O pavilhão do rei erguia-se perto da água, e as neblinas
matinais que o rio gerava tinham-no rodeado de colunas
cinza. Era todo de seda dourada, a maior e mais imponente
estrutura no acampamento. A porta, o martelo de batalha de
Robert encontrava-se em exibição, junto a um imenso escudo
de ferro decorado com o veado coroado da Casa Baratheon.
Ned tivera esperança de encontrar o rei ainda na cama, num
sono ensopado em vinho, mas a sorte não estava com ele.
Encontraram Robert bebendo cerveja de um corno polido e
rugindo seu descontentamento com dois